Eu te amo, meu Brasil! A volta do patriotismo de cadeira

RAUL MARQUES

A notícia de que as crianças vão ser obrigadas a cantar o Hino Nacional Brasileiro, perfiladas, diante da bandeira e serão filmadas, gravadas e registradas, soa como a volta inquestionável ao Brasil dos anos 70, no qual éramos obrigados a ter um tal de patriotismo de cadeira que funcionava mais ou menos assim

Tínhamos aula de duas matérias questionáveis e de valor até duvidoso onde éramos submetidos a verdadeira lavagem cerebral via canções enaltecendo o Brasil de forma exagerada e aprendíamos que tudo em nosso País era o melhor. Xenofobia pura; ditadura latente; ambas se escondiam nas aulas de Educação Moral de Cívica e na tal EPB – Estudo dos Problemas Brasileiros.

Tinha resultados? Tinha. Curiosamente, para ambas as extremidades. Ou se era uma pacífica ovelhinha que entendia o português arcaico e rebuscado do nosso hino ou se revoltava e fazíamos miséria com as músicas mais fúteis gravadas no Brasil.

Já fui suspenso três dias na escola por cantar Geraldo Vandré, Pra Não Dizer Que Não falei das Flores. Já vi torcedor do América do Rio de Janeiro, cujo uniforme é vermelhinho, ser tirado como comunista. Já fui obrigado a ler escondido obras como O Príncipe, de Maquiavel, ou O Capital, de Karl Marx. Não podia. Eram leituras proibidas.

Em troca, cantávamos erradamente músicas que jogavam o Brasil no topo do mundo, só para darmos sonoras gargalhadas, especialmente da dupla Dom e Ravel.  “As praias do Brasil ensolaradas… láláiá…o chão onde o país se elevou…”, versos gravados pelos Incríveis na canção “Eu te amo meu Brasil” eram alterados nas rodas dos estudantes. Quem tem mais de 50 cantava “Maconha no Brasil foi liberada. Láláiá… Até o presidente já fumou….” e ríamos.

Ora, onde quero chegar? Para mostrar-se amor por algo ou por alguma coisa não precisamos exibir isso em público. E quanto mais obrigatório for a necessidade de se gritar eu te amo, meu Brasil, mais fácil será enjoar e termos vergonha dos problemas nacionais.

Não serão as velhas senhoras que nos intimam a entender a letra do hino Nacional… Tá! Você está discordando? Então o que quer dizer o trecho “o lábaro que ostenta estrelado”?  Será que filmar garotos cantando hino vai ser o suficiente para devolver o respeito que a Pátria perdeu quando se enxergou que por trás de todas as exigências havia um valhacouto de papalvos que vestia verde, azul, amarelo e branco e roubava a nação? Isso. Quem matou o patriotismo, de cadeira, de berço ou o mais simples, o de coração, foi a roubalheira política, o afago da corrupção, a chama da ditadura tapando buracos com o futebol, a imensa extensão territorial, a maior produção mundial de café; enfim, um show de elogios que mais parecem anteceder algo maior.

Então, tá. Fiquemos com o Patriotismo de cadeira novamente instalado no Brasil, bem ao modo de tantas Coréias, Cubas, Alemanhas do tempo da Gestapo ou até mesmo a antiga Roma, na qual o Ave César era vaidosamente necessário.

A mão de Deus abençoou, mulher que nasce aqui, tem muito mais amor. Tem. Esta parte da canção é verdade. Só espero que ainda deixem ser verdade a parte do Eu Te Amo, meu Brasil…meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil… Que não matem o amto sincero. Porque obrigatório não presta. Vira falsidade…