A fixação em falos e a posse de armas

Todo mundo sabe que qualquer remédio que se tome, para qualquer doença, tem dois efeitos; os bons, que curam a doença e os ruins, que são os tradicionais efeitos colaterais, que podem ou não acontecer. É necessária uma avaliação da relação custo e benefício de cada remédio. E este exemplo serve muito bem para se comparar com as medidas tomadas pelo Governo, até aqui, como a flexibilização da posse de arma. Há alguns efeitos bons, além de simplesmente se encher a boca para dizer que anda armado (isso é porte, e não posse) e outros bem ruins.

Quando se deixa a população armada, cria-se um natural estado de insegurança na população. Prova está no Mapa da Violência, recentemente divulgado, e que aponta para problemas contumazes como a morte de negros e de mulheres, isso tudo com a população, em tese, desarmada. Agora, imagine com o porte de armas aprovado pelo Congresso e deixando meia dúzia de psicopatas mais felizes;

Antes de esbravejar contra este editorialista, lembre-se de algumas perguntinhas básicas que você deve responder antes de sair comprando sua pistolinha. “Sei usar uma arma?”. “Tenho equilíbrio emocional para usá-la tão somente em momentos de perigo ao meu lar, minha residência e meu patrimônio?”. “Saberei esconder a arma de crianças em casa e de adolescentes para evitar os possíveis acidentes?”.

E não fica só por aí não. Há outras questões mais amplas que precisam ser respondidas antes de se voltar ao tempo do pré-faroeste. Cuidado com as colocações genéricas, que podem ficar vagando nas razões que são fatos, frutos de pesquisas e observações que levaram anos para ser elaboradas.

Duas colocações que devem ser lembradas estão relacionadas à liberação da posse de arma. A primeira diz respeito ao Velho Tio Sam, país no qual em boa parte do território nacional a compra de armas é liberada. É bem comum um doido da vida se entrincheirar em um colégio, universidade ou um prédio público e sair praticando tiro ao alvo em gente que simplesmente estavam na hora e no local errado. Isso é fato. E os motivos que  levam tais psicopatas a isso são os mais torpes possíveis.

Pois bem! Outro acontecimento usual ocorre nas grandes cidades, onde quando um elemento é assaltado e os bandidos descobrem que ele está armado, o fuzila sem pestanejar. “É puliça”, alega o bandido. Isso sem contar com as crianças e adolescentes que são vítimas da curiosidade mórbida ou da vaidade hercúlea, a de que tem força e poder em uma arma.

Ora, os efeitos colaterais de uma população armada parecem ser maiores do que a síndrome da proteção de casa, a própria segurança. Tudo bem que vivemos enjaulados, em casas repletas de grades e trancas, mas ter uma arma parece não significar a tal liberdade da violência atual. Soa para a gente como um espécie de presídio do ego mal construído, das convicções de que tudo pode ser resolvido à bala, como era nos séculos passados.

Diante do resultado do Mapa da Violência divulgado recentemente e destes fatores, ficamos  a refletir no que pode nos chamar de volta às armas. Nem mesmo os Super-Heróis que, curiosamente, têm poderes especiais e andam desarmados em sua maioria. A não ser que ter uma arma, no fundo da mentalidade humana, seja um desejo oculto de fixação pelos falos, que nos remetem à simbologia dada às representações da imagem de um pênis ereto. O falo era adorado pelos povos antigos como um símbolo da fecundidade da natureza. Fixação em um cano de revólver seja lá o que for que pode custar muitas vidas.

A nossa mente esconde muita coisa. E quando a mente surge com nossas ideias mais obscuras, a nossa razão tende a mentir ou a levantar pretextos para quem gosta alisar canos de armas. Parece bem mais que um simples hobby. E lembre-se, já que falamos de falos, que estamos sendo governados por um presidente que sugere que lavemos o “pênis todo dia com água morna  e sabão”. Pensemos no assunto.