E vai aí se aposentando…

Caro, o senhor não deve se lembrar deste seu parente afastado, que luta feito ninguém para dar uma vida digna à minha esposa e ao meu filho. Tenho 54 anos, sou contribuinte da Previdência há 32 anos e trabalho como um louco para chegar à aposentadoria. Pois é… Esta carta, na verdade, em que pese o senhor ter votado a favor da Reforma é para questionar suas atitudes como valoroso político deste valhacouto de papalvos chamado Congresso Nacional. Além disso, o senhor, honorífico político, trouxe-me um problemão para dentro de casa.

Compreendo a natureza humana de querer levar vantagem em tudo, mas o exemplo que o senhor deu para o meu filho, não é digno de figurar na história política brasileira. Caro deputado, o senhor votou a favor da reforma de Previdência como estava, mesmo não contemplando uma série de categorias sofredoras como policiais, professores e tudo mais, mas pediu para se aposentar dentro dos padrões antigos do Congresso Nacional. Em linhas gerais, vossa excelência passa a ter direito a aposentadoria especial mesmo sendo a favor da reforma? Está certo isso!

É óbvio que não! Meu filho, educado no que há de melhor da literatura e leitura, abandonou os livros de Machado de Assis, José de Alencar, Jorge Amado… Agora, o Juquinha, só quer ler Maquiavel, a Arte da Guerra e coisas assim. Questionado sobre a razão, Juquinha respondeu que gosta de livros que retratam melhor  a realidade brasileira… “Quero livros que me ensinem a ser como o deputado Evair de Melo, que fala uma coisa e faz outra”, disse Juquinha do alto de seus 12 anos.

É! O que vou dizer para um menino que passou a dissimular, a mentir descaradamente sobre as coisas mínimas, não pregando peça, mas desfalando aquilo que havia dito anteriormente. Era fã dos canais educativos e instrutivos como Discovery e History e agora só quer saber da TV Câmara e da TV Senado.

Enfim, o Juquinha decaiu de educação e até estamos pensando em o colocar para fazer análise, só que eu como sou assalariado e não tenho dinheiro para comprar um carro, fica difícil o levar no psicanalista. Fui conversar com ele e sabe o que o Juquinha me falou: “Faça como o deputado Evair. Alugue carros à vontade e coloque gasolina no vale”.

Pois é. Este é o novo Juquinha. Outro dia, conversando com a mãe dele disse que não quer mais estudar, prefere comprar um diploma para acelerar seu engajamento político. “Quando crescer, quero ser deputado federal ou senador. Vou ficar rico. Não terá mais aposentadoria especial, mas eu vou fazer meu ganha-pão”, destacou.

O menino está incontrolável. Disse que as palavras mudam com o tempo e o momento político e adora quando ouve um discurso seu moralista pois sabe que não é nada daquilo que o senhor quer dizer.

Pois bem, primo Evair. Se o senhor continuar a falar o que não pensa e a pensar o que não fala, vou ter que ir pessoalmente tomar satisfações com vossa figura. O que não dá é para aturar o Juquinha mais tempo assim, brincando de ser deputado federal o tempo todo com a família. Soube até que inventou umas despesas adicionais para divulgar um trabalho em grupo e fez tudo 0800 pela Internet.

Resumindo, as suas contradições, Evair, não fazem bem para ninguém. Nem para meu filho que, acho, passou até a torcer pelos vilões nas histórias e nos desenhos animados. Eu vou vivendo. Tenho que trabalhar mais11 anos para conseguir uma merreca de aposentadoria, com fator de corte, enquanto o senhor vai aí se aposentando… Apareça. Temos muito que conversar.

Do seu antigo eleitor, Juca, pai do Juquinha.