O pai da refém, a mãe do bandido e a vitória da empatia

O abraço da dor: pai de uma das reféns consola mãe do criminoso morto

por Fernanda Zandonadi

A terça-feira começou enevoada e a notícia que ia pautar o jornalismo brasileiro deu as caras logo cedo, em um ônibus parado na Ponte Rio-Niterói. Os passageiros, 37 pessoas que iam trabalhar, foram tomados reféns por um rapaz que aparentava estar em um surto psicótico. Horas de negociação, horas de conversa. A arma é verdadeira, a arma é um simulacro?

Gasolina pendurada em garrafas vazias de refrigerante configuravam um varal incendiário no corredor do ônibus. Ameaça. Apreensão. Mais conversa. Tiros saídos das armas dos policiais da elite acertaram em cheio o jovem ameaçador, que morreu pouco depois de chegar ao hospital. Os passageiros não se feriram.

O governador do Rio deu pulos de alegria. Não pela morte do rapaz, disse ele, mas pelas vidas salvas. Nas redes sociais, foi chamado de sociopata por opositores. “Como festejar um momento como esse?”.

A polarização política tomou conta da tragédia humana, o que já era mais do que esperado. Uns, bradando o velho “bandido bom é bandido morto”. Outros, falando em brutalidade policial: “o desfecho podia ser diferente, eles não deveriam ter atirado”. Cada cabeça tem seu guia, diz o ditado.

Longe das redes e olhando de perto o rosto do sofrimento, o pai de uma das passageiras ameaçadas consolava a mãe do sequestrador morto. A imagem passou rápido pelos telejornais. Os dois bem juntos, abraçados e chorando. Ele, de alívio, ela, de dor. O destino de seus filhos se cruzaram de modo tão brutal e antagônico. Se a empatia passou longe das redes sociais, venceu de goleada na vida real. E, que bom, é esse o placar que vale!