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Opinião

Mania de meia culpa

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Voltemos a culpa como um todo. E esta reflexão surge após o episódio do baile funk de Paraisópolis , São Paulo, que culminou na morte de alguns jovens que por lá estavam só para se divertir. A polícia culpa o povo que culpa governo do Estado que acusa o poder público e por aí vai. Assumir que se fez algo de errado é muito difícil na atual conjuntura. Atribui-se a um medo político e de difamação gerado pelas redes sociais. Não se há culpados, mas meios culpados para tudo. É a estratégia propagada por Nicholas Maquiavel em O Príncipe. Ao diluir a culpa embaixo de um tapete já fétido e imundo pelos dias de escuridão acaba que o fato fica esquecido, transformado em estatística apenas pelo correr dos dias. No final, foi um fato, sem culpa, sem querer, mas querendo.

Pega-se um fato, uma atrocidade, e se jogam com o assunto como quem brinca com a realidade alheia. Surgem analistas, sociólogos, psicólogos e antropólogos para explicar a massa, quando sobram perguntas sobre o comportamento dos homens das corporações; o que seria mais fácil de responder. Pois bem. Aí aparecem os rótulos. Querem ver? Todo mundo tem um preconceito contra bailes funks. Que estes locais são um antro de marginais, que só têm aquilo que não presta. Será?

Ninguém vê o baile funk na sua maneira mais simples, de que é o local onde se manifesta a cultura popular das periferias, de gente humilde que ficou aleijada pela elite burguesa e seus programas mais absurdamente caros e tidos como culturais. Baile funk é um local, claro, como tantos outros, contaminado pelo que existe de pior na sociedade, mas também é o berço da boa cultura tão pisada pelos mesmos motivos citados acima.

Análise complexa, mas que precisa ser executada sem as velhas convicções nos  impostas pela mídia, pelo preconceito, pelos rótulos e por nossa condição social. Em Paraisópolis, não foram os jovens os pisoteados, mas todo o futuro de uma nação que se viu encurralada em um beco, rezando para escapar.

Ora, deixe de ser tolo amigo e tendencioso de só ver o lado de quem aparentemente está do lado errado da embarcação, quando há tantos lados equivocados neste navio chamado ordem pública. Enquanto não aprendermos e assumirmos nossa parte culposa no fato, ficaremos confortáveis, em salões de debates, em textos de jornais, em tudo que releva pouca ação a ter que agir e mudar o mundo para melhor. A culpa, mais uma vez, vai ser jogada para o ar e onde ela cair nos servirá de justificativa. Assim caminha animada a humanidade…. Outras Paraisópolis estarão por vir. Mais mortes de gente pisada que não sabe para onde ir e está cansada de viver neste jogo de  culpa que faz tanto mal.

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Chuvas no Espírito Santo

Medo da Chuva

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Aprendi a ter medo da chuva neste fim de semana. Para ser exato, nesta sexta-feira dia 17 de janeiro de 2020, quando vi a cidade em que moro ser literalmente destruída por uma tromba d´água de grandes proporções. Não sobrou nada. Nenhum comerciante ficou ileso às águas que rolavam pelo Rio Iconha e se esparramaram pelas ruas principais da cidade.

Carros boiavam e eram escorados pelo que aparecesse pela frente. Geladeiras e bujões de gás boiando nas águas que destruíram Iconha. O prédio que pertencia a um vereador caiu. Edifício de três andares que veio abaixo, no qual um bar funcionava no térreo. Sorte que ninguém se machucou gravemente.

Ainda à noite, pessoas em casas que não foram afetadas pelas chuvas abriam as portas de suas residências para quem não tinha onde ficar. A Igreja de Santo Antônio, Matriz da Cidade, abriu-se para a pequena turba de desavisados, desabrigados e desalojados que ficaram sem ter onde ficar. Ficaram ou não tinham. Foi um Deus no acuda.

Noite escura, sem agonia presente, mas com uma dor pela ansiedade do dia chegar a ver os estragos impulsionados pelas chuvas e pelo Rio Iconha. Silêncio que aumentou com a queda da luz, que só era quebrado pelo carro de Defesa Civil do município que tentava ir onde podia. Um Deus nos acuda silencioso, em meio às orações que partiam de gente dos mais diferentes credos.

A chuva para! O silêncio aumenta e o esqueleto de Iconha surge com o raiar do dia. Já não há mais uma ponte que liga um ledo da cidade a outro. Já não existem mais ruas viáveis para trafegar. Há lama por toda a parte. Escombros. Rastros de destruição e, infelizmente, algumas mortes. Todos estão atônitos.

Lágrimas. Gritos. Destaque para quem começou tudo do zero, gastou tudo que tinha na abertura de um negócio e agora vai ter que dar uma nova virada de vida, desta vez sem capital. Perdeu tudo. Em um canto da Rua Muniz Freire, depois do baque inicial, cidadãos tentam se planejar para dar início a limpar os escombros do fim. Máquinas aparecem de outras cidades, auxílios de outras defesas civis de outras cidades, mas a dor não para.

Lembro-me vagamente da música do Raul Seixas na qual ele fala que tem medo chuva; ou melhor, que ele perdeu o medo da chuva. A música é sobre casamento, uma metáfora belíssima. Mas se a história fosse levada ao pé da letra, o maluco beleza faz menção ao fato de que a chuva voltando pra terra traz coisas do ar. Raul, você errou. Na chuva, pedras não ficam imóveis no mesmo lugar– até caminhões foram carregados pelas águas da Brumadinho capixaba; na chuva, aprende-se o grande segredo da vida: ser solidário e reerguer tudo que as águas destruíram. Por uma nova Iconha, Amém!

 

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