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Raul Marques

Mar de lama, de óleo e de fogo

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Óleo nas praias. De quem é a culpa, afinal? Esta é a última pergunta que deveríamos fazer. O problema já está tomado. A natureza já foi afetada. A confusão e a poluição precisam ser resolvidas. Não adianta buscar alguém para apontar o dedo. Precisamos resolver a questão com nossa inteligência humana, se é que nos resta alguma.

Pois bem. Há de se elogiar o trabalho de quem cai de braço nas poças de óleo que viraram as praias do litoral do Nordeste. Estes, sim, provam que o povo parece se preocupar mais do que a totalidade de governantes e envolvidos no fato, cujas providências são pífias e insignificantes, dada a dimensão da catástrofe ambiental.

Ah, Governos! Sempre demorados em suas decisões e preocupados em lidar com a culpa dos outros. Como se buscar culpados – e tão somente isso – não fosse um atestado de incompetência. Há quem esteja fazendo assim nas universidades e provando a origem do óleo. Ainda que seja venezuelana sua nascente, creio que é muito pouco para se jogar a culpa nos Hermanos do país que exporta petróleo e Miss Universo para todo o planeta.

Há um embargo sobre a nação venezuelana e qualquer minguada venda de óleo, diante de tanto embargo, é muito bem vinda. Alguns defendem que o país ao Noroeste da América da Sul seja punido, mas qual a culpa de uma indústria que vende um carro para alguém e acontece algum acidente. Nenhuma. Não há culpa depois da venda para produtos industrializados. Se fosse assim, não haveria uma empresa produtora de automóveis viva e sadia financeiramente em razão da quantidade de acidentes.

É um erro comum buscarmos primeiro os culpados para depois agirmos. É uma falha humana que merece ser corrigida por atos e não por palavras e jogo de culpa que faz tanto mal. Óleo nas praias, óleo nos cérebros de quem não entendeu ainda que a sétima arte tem a receita certa para quem quer ter sucesso: luz, câmera, ação! Sim, primeiro a luz de nossas ideias; depois quem as grave para gente; e por fim a ação, agir. Colocar em prática tudo que foi pensado e é possível de ser feito para resolver. Solucionar. Ou, então, vamos ser eternamente um mar de lama, de óleo e de fogo.

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Chuvas no Espírito Santo

Medo da Chuva

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Aprendi a ter medo da chuva neste fim de semana. Para ser exato, nesta sexta-feira dia 17 de janeiro de 2020, quando vi a cidade em que moro ser literalmente destruída por uma tromba d´água de grandes proporções. Não sobrou nada. Nenhum comerciante ficou ileso às águas que rolavam pelo Rio Iconha e se esparramaram pelas ruas principais da cidade.

Carros boiavam e eram escorados pelo que aparecesse pela frente. Geladeiras e bujões de gás boiando nas águas que destruíram Iconha. O prédio que pertencia a um vereador caiu. Edifício de três andares que veio abaixo, no qual um bar funcionava no térreo. Sorte que ninguém se machucou gravemente.

Ainda à noite, pessoas em casas que não foram afetadas pelas chuvas abriam as portas de suas residências para quem não tinha onde ficar. A Igreja de Santo Antônio, Matriz da Cidade, abriu-se para a pequena turba de desavisados, desabrigados e desalojados que ficaram sem ter onde ficar. Ficaram ou não tinham. Foi um Deus no acuda.

Noite escura, sem agonia presente, mas com uma dor pela ansiedade do dia chegar a ver os estragos impulsionados pelas chuvas e pelo Rio Iconha. Silêncio que aumentou com a queda da luz, que só era quebrado pelo carro de Defesa Civil do município que tentava ir onde podia. Um Deus nos acuda silencioso, em meio às orações que partiam de gente dos mais diferentes credos.

A chuva para! O silêncio aumenta e o esqueleto de Iconha surge com o raiar do dia. Já não há mais uma ponte que liga um ledo da cidade a outro. Já não existem mais ruas viáveis para trafegar. Há lama por toda a parte. Escombros. Rastros de destruição e, infelizmente, algumas mortes. Todos estão atônitos.

Lágrimas. Gritos. Destaque para quem começou tudo do zero, gastou tudo que tinha na abertura de um negócio e agora vai ter que dar uma nova virada de vida, desta vez sem capital. Perdeu tudo. Em um canto da Rua Muniz Freire, depois do baque inicial, cidadãos tentam se planejar para dar início a limpar os escombros do fim. Máquinas aparecem de outras cidades, auxílios de outras defesas civis de outras cidades, mas a dor não para.

Lembro-me vagamente da música do Raul Seixas na qual ele fala que tem medo chuva; ou melhor, que ele perdeu o medo da chuva. A música é sobre casamento, uma metáfora belíssima. Mas se a história fosse levada ao pé da letra, o maluco beleza faz menção ao fato de que a chuva voltando pra terra traz coisas do ar. Raul, você errou. Na chuva, pedras não ficam imóveis no mesmo lugar– até caminhões foram carregados pelas águas da Brumadinho capixaba; na chuva, aprende-se o grande segredo da vida: ser solidário e reerguer tudo que as águas destruíram. Por uma nova Iconha, Amém!

 

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