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Saúde

“Nossa mãe morreu de coronavírus enquanto estávamos no funeral de nosso pai”

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John e Mary Boxer no dia do casamento, em 23 de julho de 1960. Elaine Boxer/Arquivo Pessoal/BBC

 

 

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BBC News Brasil

John e Mary Boxer deveriam estar comemorando suas bodas de diamante nesta semana. A família deles planejava fazer uma grande festa para marcar os 60 anos de casamento.

Mas John e Mary morreram de Covid-19  no espaço de dias um do outro.

“Ambos vieram de famílias grandes e eram um de sete filhos”, diz a filha Elaine. “Quatro meninos e três meninas. Papai trabalhava em telecomunicações e a mamãe era faxineira e depois babá no Hospital Real de Sunderland.”

O casal era amigo desde a infância, crescendo na mesma parte da cidade de Sunderland, no nordeste da Inglaterra.

“Minha mãe parou de trabalhar para cuidar da minha avó que viveu conosco e com minha irmã a vida toda. Minha avó tinha 103 anos quando foi admitida em uma casa de repouso depois que minha mãe começou a ter problema nos quadris. Ela (avó) tinha 106 anos quando morreu.”

Elaine e sua irmã Glynis estavam planejando o 60º aniversário do casamento de seus pais.

“Estávamos pensando em reservar um salão de festas e ter meu cunhado, que é cantor, se apresentando”, diz Elaine. “Sabíamos que meus pais gostavam de cantar e adorariam ouvi-lo cantar. Mas, por causa do confinamento, tivemos que suspender os planos.”

Em 10 de abril, John adoeceu e foi levado ao Hospital Real de Sunderland, o mesmo hospital em que sua esposa trabalhara. Era sexta-feira Santa. Os funcionários não encontraram nada de errado com ele e o mandaram de volta para casa.

Mas, no domingo de Páscoa, ele voltou e o hospital realizou os testes para covid-19. Na segunda-feira de Páscoa, seu exame deu positivo.

“O hospital ia mandá-lo de volta para casa novamente, mas quando meu cunhado o buscou, ele não conseguia se levantar”, conta Elaine. “Papai tinha diabetes e mal de Parkinson, mas ele disse que se sentia cansado e exausto.”

John ficou no hospital, mas sua saúde se deteriorou e, na sexta-feira, 17 de abril — sete dias depois de adoecer — ele faleceu.

John e Mary Boxer

John e Mary Boxer iam celebrar bodas de diamante. Foto: Elaine Boxer

‘Mamãe parou de comer’

“Não podia acreditar”, diz Elaine. “Falei com ele na quinta-feira santa e ele parecia bem — estava conversando e rindo como sempre.”

Elaine diz que Mary, que havia sido diagnosticada com Alzheimer, inicialmente achou difícil processar o que havia acontecido.

“Ela parou de comer, mas nós achávamos que era por causa do pesar (pela morte do marido)”, diz Elaine.

Alguns dias antes do funeral do pai, Elaine foi à cidade enquanto a irmã foi ver a mãe.

“Minha irmã me ligou dizendo que eu precisava vir imediatamente. Mamãe estava angustiada e sua temperatura subiu. Ela não tinha tosse ou outros sintomas relacionados à covid-19, mas seus níveis de oxigênio estavam baixos.”

Mary deu entrada no hospital naquela tarde, onde foi diagnosticada com coronavírus. Ela foi mantida no hospital e a família pôde vê-la por meio de uma videochamada.

O funeral de John foi realizado no sábado, 2 de maio, na igreja católica romana de St. Hilda, em Sunderland — mas apenas sete pessoas puderam comparecer.

“Fui eu, meu companheiro, minha irmã, meu cunhado, o irmão mais velho de meu pai, meu primo e sua esposa. Todos nossos telefones estavam no modo silêncio”, diz Elaine.

“Depois do funeral, voltamos à casa da minha irmã. Meu cunhado checou o telefone e viu que havia ligações perdidas. Ele ligou de volta e foi encaminhado para a enfermaria do hospital. Ele disse à minha irmã o que o hospital disse: ‘Mary morreu.”

“Nos abraçamos e começamos a chorar. Sabíamos que mamãe estava mal e, devido à idade dela, não havia muito que eles pudessem fazer. Mas foi um choque que isso tenha acontecido no dia do funeral do papai.”

“Estávamos muito tristes, mas minha irmã e eu ligamos o piloto automático. Telefonamos para avisar a família. Também falamos com o padre e ele disse que a igreja estava fazendo orações por nossa mãe mais cedo naquele dia.”

“Ligamos para os funcionários da funerária de quem mal havíamos nos despedido — eles também não podiam acreditar no que aconteceu.”

O funeral de Mary foi no dia da Vitória na Europa, em 8 de maio (que celebrou os 75 anos do fim da Segunda Guerra no continente). Naquele momento, as regras sobre comparecimento a funerais haviam mudado. Dezesseis pessoas foram permitidas no funeral, que foi transmitido pela internet a amigos e familiares.

“Mamãe e papai têm famílias grandes e sinto que foram traídos pelos funerais que teriam tido”, diz Elaine.

“Eles se amavam muito e fariam qualquer coisa um pelo outro. Se um estivesse no hospital, o outro estaria ao seu lado a todo momento”, acrescenta.

“E aproveitavam o tempo livre. No 40º aniversário de casamento, foram para os Estados Unidos e se divertiram muito na Flórida e em Las Vegas.”

A família agora planeja celebrar a vida de John e Mary no ano que vem.

“Teríamos uma grande comemoração pelo 60º aniversário de casamento dos meus pais e reuniríamos toda a família. Faremos uma celebração conjunta para eles no final do ano.”

“Precisamos de um desfecho”, acrescenta Elaine. “O pequeno conforto que temos é que eles estão juntos novamente — eles estavam sempre juntos”.

Reportagem adicional de Kris Bramwell

Fonte: IG SAÚDE

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Qual o nível de vacinação necessário para voltarmos à ‘vida normal’

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BBC News Brasil

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José Carlos Cueto – BBC News Mundo

Vacina contra o coronavírus: qual o nível de vacinação necessário para voltarmos à ‘vida normal’

Os anúncios sobre vacinas contra o coronavírus levam a um otimismo, mas acabar com a pandemia e retornar ao que conhecemos como normalidade ainda está longe.

Viajar sem restrições, não usar máscaras e participar de eventos de massa são algumas atividades que vão demorar para retornar.

Não basta que as vacinas sejam aprovadas e os países iniciem suas campanhas de vacinação. Para falar de um “novo normal”, segundo especialistas, será necessário vacinar uma grande parte da população.

E isso pode levar vários meses ou até anos.

Também não está claro o quão normal viveremos quando conseguirmos imunidade coletiva. Vai depender de quanto tempo dura a proteção das vacinas e se elas cortam a transmissão além de nos prevenir de adoecer.

Quatro desenvolvedores mostraram seus resultados até agora: Pfizer / BioNTech (EUA-Alemanha), Instituto Gamaleya (Rússia), Moderna (EUA) e Universidade de Oxford / AstraZeneca (Reino Unido).

As quatro vacinas mostraram-se eficazes em ensaios clínicos de fase 3, mas os resultados estão pendentes de aprovação.

Considerando isso e os sacrifícios para distribuir doses em massa, quantas pessoas devem ser vacinadas para recuperarmos a vida como era antes do coronavírus?

Imunidade global

“Como e quando voltaremos à normalidade está na mente de todo mundo”, reconhece Andrew Bradley, professor de medicina molecular na Mayo Clinic, nos EUA.

“Mas é certo que, para isso, cerca de 75% da população terá que ser vacinada”, explica Bradley à BBC Mundo.

São dados semelhantes aos da Associação de Vacinação da Espanha, país que aprovou seu plano de vacinação contra covid-19 em 24 de novembro. Terá início em janeiro de 2021, com vacinas gratuitas e administradas primeiro aos grupos com maior risco de mortalidade e exposição à doença.

Vacinação nos EUA

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A OMS estima que será necessário imunizar 60-70% da população para frear a propagação do vírus

“Com 60-70% de vacinação, começamos a controlar o microrganismo e cortar a transmissão”, disse Amós García Rojas, presidente da associação, à BBC Mundo.

Os números também coincidem com os percentuais que a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima necessários para alcançar a imunidade de rebanho, ou seja, uma imunidade de coletiva mínima, mas necessária, para deter a doença.

“Dada a alta transmissibilidade do SARS CoV-2, acreditamos que será necessário imunizar entre 60 e 70% da população. Isso é conseguido com a vacinação segura”, disse Soumya Swaminathan, cientista-chefe da OMS, em uma conferência.

Bradley diz que é essencial que os níveis de vacinação sejam alcançados globalmente, e não apenas dentro de um país.

“Será preciso atingir imunidade coletiva em escala global para reduzir a incidência da doença ou erradicá-la. Levando em consideração que somos mais de sete bilhões, isso pode levar anos”, estima o especialista.

“Estamos em uma pandemia e não se trata apenas de controlar a doença no Reino Unido, na França ou na Espanha. Devemos combatê-la também na África e na América Latina”, diz García Rojas.

Posto de vacinação na Cidade do México.

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Especialistas acreditam que, para falar de um novo normal, é preciso atingir altas taxas de vacinação em todo o mundo e não apenas em alguns países

“Os países ricos devem ajudar os que têm menos recursos. Esse é um problema global, de solidariedade”, acrescenta.

Atualmente, vários governos, organizações de saúde, fabricantes, cientistas e filantropos contribuem com o projeto Covax, que visa proporcionar uma distribuição justa e fluida de vacinas e tratamentos em todo o mundo, independentemente dos recursos de cada país.

Alguns países, explica García Rojas, podem já ter mais imunizados de forma natural e ter superado a doença.

No entanto, ele diz que a vacina deve ser dada a todos, “independentemente de terem se infectado, assintomáticos ou não”.

Dúvidas

Embora exista um certo consenso em vacinar cerca de 70% da população para recuperar alguma normalidade, outras organizações exigem cautela e apontam várias questões a serem respondidas.

“A doença e sua imunidade ainda não são 100% conhecidas. É muito cedo para dizer qual porcentagem precisa ser vacinada para reduzir a transmissão”, disse Rodrigo Romero, secretário-geral da Associação Mexicana de Vacinação, à BBC News Mundo.

“Dependerá também da eficácia da vacina e de quanto tempo dura a proteção nas pessoas”, acrescenta.

Além disso das dúvidas sobre a proteção e imunidade das vacinas, há os desafios logísticos, de distribuição e armazenamento.

As vacinas Moderna e Pfizer / BioNtech, por exemplo, devem ser armazenadas em temperaturas ultra-frias usando tecnologias especiais.

Pessoa segura uma placa que diz

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‘Estamos vendo um número considerável de pessoas que não tem certeza se vão se vacinar ou não. Cada campanha de vacinação terá que ser acompanhada por uma estratégia de comunicação clara. Tudo isso leva mais tempo’

Especialistas afirmam que isso será um desafio, principalmente em países com menos recursos ou em desenvolvimento.

“O ritmo de chegada das vacinas em cada país marcará os possíveis horizontes de tempo para voltar à normalidade”, diz García Rojas.

“Também estamos vendo um número considerável de pessoas que não têm certeza se vão se vacinar ou não. Cada campanha de vacinação terá que ser acompanhada de uma estratégia de comunicação clara. Tudo isso leva mais tempo”, completa.

Novo ou velho normal?

Mesmo conseguindo imunizar boa parte da população, especialistas têm dúvidas sobre como será o retorno à normalidade e até mesmo se teremos uma vida como antes da pandemia.

Bradley acredita que é “improvável” retornar à mesma vida em breve. Ele argumenta que “muitas empresas mudarão e os funcionários continuarão seu trabalho remoto”.

Homem com uma máscara dentro de um vagão do metrô de Moscou

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García Rojas espera que o uso de máscaras continue após a pandemia. Nem sempre, mas como demonstração de solidariedade quando estamos resfriados, por exemplo

“Restaurantes e bares funcionarão com capacidade reduzida e as viagens continuarão limitadas”, acrescentou.

García Rojas, por outro lado, afirma que falar de um “novo normal” causa arrepio.

“Gostaria da normalidade. Mas falar sobre isso em meio a uma pandemia é perigosa para a cidadania. Podemos passar a impressão de que estamos prontos para voltar à velha rotina “, afirma.

“Espero sinceramente que depois do coronavírus a gente mantenha muitos costumes que adquirimos para nos proteger. Espero que a gente continue a lavar as mãos com mais frequência. E também o uso de máscaras — nem sempre, mas sim para mostrar solidariedade e usar na rua quando estamos resfriados”, concluiu García Rojas.


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Fonte: IG SAÚDE

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