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Praça Vermelha

O pai da refém, a mãe do bandido e a vitória da empatia

Publicado

por Fernanda Zandonadi

A terça-feira começou enevoada e a notícia que ia pautar o jornalismo brasileiro deu as caras logo cedo, em um ônibus parado na Ponte Rio-Niterói. Os passageiros, 37 pessoas que iam trabalhar, foram tomados reféns por um rapaz que aparentava estar em um surto psicótico. Horas de negociação, horas de conversa. A arma é verdadeira, a arma é um simulacro?

Gasolina pendurada em garrafas vazias de refrigerante configuravam um varal incendiário no corredor do ônibus. Ameaça. Apreensão. Mais conversa. Tiros saídos das armas dos policiais da elite acertaram em cheio o jovem ameaçador, que morreu pouco depois de chegar ao hospital. Os passageiros não se feriram.

O governador do Rio deu pulos de alegria. Não pela morte do rapaz, disse ele, mas pelas vidas salvas. Nas redes sociais, foi chamado de sociopata por opositores. “Como festejar um momento como esse?”.

A polarização política tomou conta da tragédia humana, o que já era mais do que esperado. Uns, bradando o velho “bandido bom é bandido morto”. Outros, falando em brutalidade policial: “o desfecho podia ser diferente, eles não deveriam ter atirado”. Cada cabeça tem seu guia, diz o ditado.

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Longe das redes e olhando de perto o rosto do sofrimento, o pai de uma das passageiras ameaçadas consolava a mãe do sequestrador morto. A imagem passou rápido pelos telejornais. Os dois bem juntos, abraçados e chorando. Ele, de alívio, ela, de dor. O destino de seus filhos se cruzaram de modo tão brutal e antagônico. Se a empatia passou longe das redes sociais, venceu de goleada na vida real. E, que bom, é esse o placar que vale!

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Política Estadual

Repúdio à eleição pré-datada da Assembleia Legislativa

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Pegou mal a antecipação da eleição para presidência da Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales). Quase um ano e maio antes da data prevista, a eleição teve cara de golpe, jeito de golpe e da malandragem travestida da procedimento. Na verdade, a reeleição do deputado Erick Musso (Republicanos) para presidência da Ales no biênio 2021-2023 é um exemplo de como se não faz a democracia. E não há discurso que convença a gente de que o ato foi precedido de um “debate democrático’. Quase um ano e meio de antecipação é muito, não?

Mas este entendimento não é só do pessoal da Praça Vermelha. Há outros grupos, baluartes da democracia, que pensam assim. Nesta terça-feira (3), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-ES) ingressou com uma Ação Civil Pública, pedindo a anulação da Emenda Constitucional aprovada pelos deputados estaduais, no sapatinho, no último dia 25. O pedido foi encaminhado para a Justiça Federal, que esperamos agir com mão pesada sobre este truque grotesco dos legisladores, que até se ameaçaram se engalfinhar sabe lá Deus com que objetivo.

O Praça Vermelha apurou que segundo consta da Ação Civil Pública, o pedido de anulação visa a manutenção das regras e princípios constitucionais violados durante a eleição. O documento ainda ressalta o pouco tempo para a confecção das chapas (cinco minutos). Em apenas cinco minutos, poucas coisas podem ser feitas e se assim o forem nos cheira a maracutaia ou provocação da ordem pública e democrática.

De acordo com o presidente da seccional capixaba da OAB-ES, José Carlos Rizk Filho, a reeleição de Erick Musso pode ter sido irregular. Pode ? Pode não! Foi! “A OAB-ES estudou de maneira técnica e formal o processo eleitoral e a Emenda, e com isso, chegamos ao entendimento que, caberia sim, o questionamento judicial. Com isso, ajuizamos a ação questionando formalmente se a eleição foi licita ou não”, ressalta Rizk. A eleição em questão não teria respeitado os procedimentos internos básicos da Ales. A Ação Civil Pública poderá resultar na suspensão parcial ou total da eleição de Musso, mesmo que o Governo Casagrande tenha informado  que trataria a relação com o Poder Legislativo como algo puramente institucional.

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Há mais. Na última segunda-feira (2), o deputado estadual Fabrício Gandini (Cidadania) entrou com um mandado de segurança na Justiça pedindo a anulação da eleição antecipada da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa (Ales). Segundo Gandini, muitos parlamentares sequer sabiam que a eleição ocorreria na última quarta-feira (27), mais de 450 dias antes da data prevista.

Gandini foi um dos cinco deputados que votaram contra a chapa única, encabeçada por Erick Musso. Outros 24 votaram favoravelmente. Gandini classificou o processo como antidemocrático. Foi mais que isso, Gandini. Foi inconstitucional.  “Quem detinha a informação de que tinha eleição construiu uma chapa e ela ficou como chapa única, então não permitiu a participação de ninguém no processo. Eu alertei, inclusive no mesmo dia, ao presidente que estava dirigindo a Casa no momento, que a gente precisava de mais prazo”, afirmou. Mas para que prazo se o objetivo é se perpetuar no poder?

A Emenda Constitucional, aprovada com a votação de 25 dos 30 deputados estaduais, permitiu a antecipação da eleição da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa. Inicialmente prevista para acontecer somente no dia 1ª de fevereiro de 2021, a eleição da Mesa Diretora foi antecipada com a justificativa de interferência do processo eleitoral municipal em 2020. Bacana porém  bastante sombria esta justificativa.

Enfim, Erick Musso (Republicanos) foi reeleito, no último dia 27, após a antecipação da eleição da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa em mais de 450 dias. Isso só foi possível após os deputados estaduais aprovarem, em dois turnos, Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que antecipou o pleito. Na ocasião, apenas uma chapa foi registrada, e um grupo de  parlamentares ainda tentou articular uma chapa concorrente, mas sem sucesso.

Além de Erick Musso, compõem a nova Mesa Diretora os deputados Marcelo Santos (PDT), como 1° vice-presidente; Torino Marques (PSL), 2° vice-presidente; Adilson Espindula (PTB), 1° secretário; Freitas (PSB), 2° secretário; Marcos Garcia (PV), 3° secretário; e Janete de Sá (PMN), 4° secretário.

A chapa única foi eleita com 24 votos a favor e 5 contra. Votaram contra a chapa os deputados Fabrício Gandini (Cidadania), Iriny Lopes (PT), Luciano Machado (PV), Dary Pagung (PSB) e Sergio Majeski (PSB). O deputado Theodorico Ferraço (DEM) não votou.

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O deputado Sergio Majeski reclamou da falta de transparência. “Eu confesso que estou chocado. Eu nem tenho palavras para o que está acontecendo aqui. As pessoas não sabiam disso. Isso não é democrático”, protestou.

Por sua vez, o deputado Fabrício Gandini (Cidadania) reclamou do tempo de cinco minutos destinado à apresentação das chapas. “Ninguém tem problema em perder. Eu estou pedindo razoabilidade da Presidência para um prazo maior para que a gente se organize e inscreva as chapas”, solicitou. A extensão do prazo não foi concedida e apenas a chapa encabeçada por Musso foi registrada.

A deputada Iriny Lopes (PT) também se mostrou surpresa e criticou a pressa da eleição. “Eu também estou muito surpresa. A eleição de uma Mesa Diretora requer tempo e conversa. Nós não estamos aqui fazendo registro. Estamos falando da Mesa Diretora do Poder Legislativo. Precisamos de um mínimo de tempo condizente com relevância da eleição”, disse Iriny.

Por fim, o deputado Luciano Machado, que também votou contra a reeleição e que faz parte da atual Mesa, apresentou também críticas ao processo. “Não vejo necessidade de ser votado esse ano. Fui surpreendido com a informação de que a votação já seria hoje. Como primeiro-secretário da atual Mesa, deveria ter sido comunicado. Tenho a impressão de que eu não sou de confiança. Sempre tive uma relação cordial e de respeito com os outros parlamentares”, registrou.

Se eleições diretas são sinais de democracia forte e estabelecida, no caso, pode não ser. É que a força dada à pressa foi  maior que a dada ao poder de escolha. Trata-se de um golpe estabelecido como ato democrático (sic) ao qual repudiamos. Nem que fosse no mesmo dia. Tudo tem um preço e um custo. Resta saber qual nós, capixabas, pagaremos. Ainda há muita água para passar debaixo desta ponte. E parabéns à Câmara por ter criado a primeira eleição pré-datada da história do Brasil.

 

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